Durante décadas, convencionamos que, para desfazermos os nós da vida, era preciso cruzar uma porta de madeira pesada, sentar-se em uma poltrona de veludo e encarar um analista sob a luz suave de um abajur, com um vaso de planta sob a janela. Havia uma solenidade neste ato.
Hoje, o cenário mudou. A porta de madeira foi substituída por um uma ligação de whatsapp, e o abajur dá lugar à luminosidade de uma tela, muitas vezes com um fundo desfocado. Mas a pergunta que resta, essencialmente, é: como é este encontro quando estamos virtualmente juntos, mas fisicamente distantes?
Fazer terapia online não é uma mera adaptação técnica; é uma nova forma de habitar o mundo a dois. Existe uma ironia fina no fato de que a internet, tantas vezes acusada de dispersar nossa atenção, possa servir de ponte para o mergulho mais profundo que alguém pode dar em si mesmo. O espaço terapêutico deixa de ter um endereço postal, mas permanece como um acontecimento real.
Não importa se você está na sua sala, no quarto de um hotel durante uma viagem de negócios, ou estacionado no carro para garantir aquele silêncio precioso que a rotina doméstica não oferece. Já houve quem fizesse sessão caminhando pelo parque, deixando que o passo físico ritmasse os passos do sentimento. Se há uma boa conexão de rede e, acima de tudo, uma conexão intencional de presença, o milagre do encontro acontece. Criamos, naquele instante, um terceiro lugar: um território invisível, mas rigorosamente real, sustentado pelo silêncio partilhado e pela palavra dita. Afinal, a angústia e o sentido da vida não ocupam espaço físico. Eles acontecem no agora. E o agora, felizmente, seja dentro de um espaço físico ou seja através de um Wi-Fi de alta velocidade, precisa apenas de uma atenção dedicada a se estar verdadeiramente ali.
