Manter um relacionamento saudável com um companheiro ao longo dos anos não é uma tarefa simples. No começo, tudo parece fluir com facilidade — o outro surge como um bálsamo em nossa vida, trazendo alegria e leveza. Entretanto, com o tempo, começamos a enxergar certas características que antes não pareciam estar ali. Pequenos traços, que pareciam quase irrelevantes, ganham uma proporção inesperada, a ponto de ofuscar a forma como percebemos aquele que nos acompanha.
Mas o que isso significa? Por que é tão comum essa mudança na forma como vemos o outro? Como a psicoterapia pode ajudar diante desse tipo de dificuldade?
No início de um relacionamento, é natural que nossas expectativas e desejos projetem sobre o outro uma imagem que, muitas vezes, reflete mais nossas próprias necessidades e idealizações do que a realidade da pessoa. O que surge depois, quando essa camada inicial se desfaz, é a revelação de que o outro é um ser humano completo, com qualidades e limitações. Esse encontro com a realidade do outro pode ser desconfortável porque, ao enxergar as limitações do parceiro, muitas vezes somos confrontados com nossas próprias limitações.
A dificuldade está justamente aí: em vez de reconhecermos que esses incômodos falam sobre nós mesmos, tendemos a responsabilizar o outro pelo desconforto. Surge o orgulho, a mágoa, o ressentimento — e, pouco a pouco, o relacionamento vai se tornando cada vez mais difícil de sustentar. Nesse ponto, é comum que um dos parceiros (ou ambos) pense que o problema está na escolha errada e que, encontrando “a pessoa certa”, tudo se resolverá. Mas essa é uma ilusão que frequentemente leva a ciclos de frustração e separação.
O caminho para um relacionamento mais verdadeiro e leve passa pelo reconhecimento de si mesmo. A terapia pode ajudar nesse processo ao criar um espaço de escuta e acolhimento, onde é possível reconhecer nossas imperfeições sem julgamento. Quando conseguimos aceitar nossas próprias fragilidades e limites, nos tornamos mais capazes de aceitar o outro como ele realmente é — sem o peso das expectativas ou das idealizações.
Esse movimento de acolhimento e abertura nos torna mais generosos e menos defensivos na relação. Quando o outro pode ser visto como realmente é — sem as distorções causadas pelas nossas projeções —, o vínculo ganha espaço para respirar. A liberdade dentro da relação só é possível quando conseguimos atravessar a barreira das nossas expectativas e enxergar o outro em sua singularidade. E é nesse espaço de liberdade que o amor verdadeiro pode florescer.
Quando o fim é um caminho de autenticidade
Nem sempre, porém, o caminho para a autenticidade significa permanecer na relação. Em alguns casos, ao se tornar mais consciente de si mesmo, o indivíduo pode perceber que a relação já não é um espaço onde ele pode ser verdadeiro. Quando o vínculo se sustenta apenas em expectativas, medos ou em uma tentativa de preencher um vazio interno, o reconhecimento disso pode revelar que o término é, na verdade, um ato de autenticidade e cuidado consigo mesmo.
Encerrar uma relação, nesse contexto, não é um fracasso — é o desdobramento natural de um processo de amadurecimento. Reconhecer que o vínculo já não serve ao crescimento de ambos é um ato de coragem e respeito, tanto por si mesmo quanto pelo outro. A terapia pode oferecer um espaço seguro para atravessar esse momento, ajudando o indivíduo a acolher o luto pelo fim da relação sem se perder em culpa ou ressentimento.
Ao escolher encerrar um relacionamento de forma consciente e verdadeira, o indivíduo se liberta para viver de maneira mais alinhada consigo mesmo. O fim de uma relação, quando vivido dessa maneira, pode abrir espaço para um reencontro com o próprio caminho e para a possibilidade de novas formas de vínculo que reflitam essa nova postura mais autêntica diante da vida.